Mostrando postagens com marcador Utopia do Amor Perfeito. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Utopia do Amor Perfeito. Mostrar todas as postagens

domingo, 23 de janeiro de 2011

UTOPIA DO AMOR PERFEITO

Você já se perguntou se o amor sempre foi sentido e definido da forma como o conhecemos hoje? Será que ele obedece regras morais e culturais? Será que sua definição sofre alterações conforme os discursos de cada época, de cada sociedade?

Assisti recentemente a uma palestra da psicanalista Caterina Koltai, onde ela abordava questões sobre utopia em diversas áreas, uma delas o amor. Identifiquei-me muito com o que foi dito, pois meu discurso sobre o amor nunca foi cegamente romântico. Nesse post junto trechos da palestra mesclando com minha visão e interpretação do que penso ser o amor.

Historicamente cada época viveu seu amor perfeito, na Grécia, por exemplo, o amor de um homem pelo outro fazia parte do discurso sobre o amor daquela época, havia regras. Já na idade média havia o amor cortês, onde a pessoa amada era algo inatingível, havia a distância, o silêncio do amado era necessário. Com a Revolução Francesa a noção de amor muda totalmente, surge aí o amor romântico do até que a morte nos separe. O amor romântico produz o casamento monogâmico, que é uma garantia de moralidade, a família passa a ser baseada mais pela razão do que pela paixão sexual, nesse período começa a separação entre o amor e o desejo. Com a geração de 68, uma corrente libertária entra em cena, questionando os princípios, a família, surgem lutas pelas minorias e o discurso do amor livre. Era proibido proibir.

Fica claro que o discurso sobre o amor muda de acordo com a época e com a cultura. Fácil também é perceber a utopia (ilusão) em cada um desses discursos, a busca do amor perfeito, do par perfeito, da felicidade plena, da sociedade perfeita, etc.

E nos dias atuais qual será o discurso sobre o amor?
Vou transcrever um trecho da palestra onde a psicanalista aborda o amor na atualidade:

“Hoje vivemos o tempo do ficar, de uma sexualidade cada vez mais separada do amor, mais nômade, mais ansiosa e mais solitária Os parceiros são eventuais, as instituições (escolha, família, partido), estão enfraquecidas. De regra geral, somos contemporâneos e individualistas.”  Caterina Koltai

A sexualidade livre foi uma conquista, porém pode gerar frustrações. Quantas pessoas após uma noite de sexo casual acordam no outro dia esperando um telefonema, ou que alguém bata a sua porta com um monte de flores e um cartão cheio de romantismo.  A noção de que o amor e o desejo não caminham sempre juntos já é um conceito antigo, embora muitos de nós insistamos em não dissociar o amor do desejo. Não estou afirmando com isso que não possamos amar e desejar ao mesmo tempo. Freud já dizia que o ser humano tem dificuldade de conciliar amor e desejo, ele dizia também que o amor é necessário para nossa saúde mental e que quem não é capaz de amar (no sentido lato) adoece.

Quando estamos amando, salvo exceções, criamos uma demanda de amor dirigida ao outro que não responde. O amor não pede resposta, essa reciprocidade que esperamos e às vezes até exigimos do amor é pura ilusão, uma utopia da perfeição. UTOPIA é sonho, é a fantasia de algo ideal.  O outro não está aqui para nos agradar, para nos satisfazer e nem para dar o que queremos. E como isso nos gera insegurança, nada mais parece dar certo, já vivi isso e sei o quanto é difícil.

Diferente da utopia, a INCOMPLETUDE é um fato, passamos uma vida desejando que alguém nos complete. Achamos que de dois fazemos um, pura ilusão. O amor maduro é o amor que reconhece que o outro é outro, é uma parte inteira com os desejos dele e as vontades dele, o outro não está aqui para nos completar. Podemos sim compartilhar, mas não viver a vida do outro ou criar uma relação baseada na submissão do outro.

Ter desejos e tesão em outras coisas que não somente no coitado do ser amado, também ajuda. Se você tiver interesses por viagens, cultura, seu trabalho, seus amigos, seus projetos pessoais, seus sonhos, a demanda que você irá exigir do outro será menor, estará dividida e não irá sufocar, mas se seu único tesão for o coitado do outro, vai ser difícil.

“Amor é um sofrimento que vale a pena, muito mais do que o sofrimento do não amar. Caterina Koltai.”

E viva o amor, seja ele de que tipo for. Cada um ama na intensidade e com a maturidade que pode.
Alexandre Malosti
Fonte de pesquisa: www.cpflcultura.com.br/