Você já se perguntou se o amor sempre foi sentido e definido da forma como o conhecemos hoje? Será que ele obedece regras morais e culturais? Será que sua definição sofre alterações conforme os discursos de cada época, de cada sociedade?
Assisti recentemente a uma palestra da psicanalista Caterina Koltai, onde ela abordava questões sobre utopia em diversas áreas, uma delas o amor. Identifiquei-me muito com o que foi dito, pois meu discurso sobre o amor nunca foi cegamente romântico. Nesse post junto trechos da palestra mesclando com minha visão e interpretação do que penso ser o amor.
Historicamente cada época viveu seu amor perfeito, na Grécia, por exemplo, o amor de um homem pelo outro fazia parte do discurso sobre o amor daquela época, havia regras. Já na idade média havia o amor cortês, onde a pessoa amada era algo inatingível, havia a distância, o silêncio do amado era necessário. Com a Revolução Francesa a noção de amor muda totalmente, surge aí o amor romântico do até que a morte nos separe. O amor romântico produz o casamento monogâmico, que é uma garantia de moralidade, a família passa a ser baseada mais pela razão do que pela paixão sexual, nesse período começa a separação entre o amor e o desejo. Com a geração de 68, uma corrente libertária entra em cena, questionando os princípios, a família, surgem lutas pelas minorias e o discurso do amor livre. Era proibido proibir.
Fica claro que o discurso sobre o amor muda de acordo com a época e com a cultura. Fácil também é perceber a utopia (ilusão) em cada um desses discursos, a busca do amor perfeito, do par perfeito, da felicidade plena, da sociedade perfeita, etc.
E nos dias atuais qual será o discurso sobre o amor?
Vou transcrever um trecho da palestra onde a psicanalista aborda o amor na atualidade:
“Hoje vivemos o tempo do ficar, de uma sexualidade cada vez mais separada do amor, mais nômade, mais ansiosa e mais solitária Os parceiros são eventuais, as instituições (escolha, família, partido), estão enfraquecidas. De regra geral, somos contemporâneos e individualistas.” Caterina Koltai
A sexualidade livre foi uma conquista, porém pode gerar frustrações. Quantas pessoas após uma noite de sexo casual acordam no outro dia esperando um telefonema, ou que alguém bata a sua porta com um monte de flores e um cartão cheio de romantismo. A noção de que o amor e o desejo não caminham sempre juntos já é um conceito antigo, embora muitos de nós insistamos em não dissociar o amor do desejo. Não estou afirmando com isso que não possamos amar e desejar ao mesmo tempo. Freud já dizia que o ser humano tem dificuldade de conciliar amor e desejo, ele dizia também que o amor é necessário para nossa saúde mental e que quem não é capaz de amar (no sentido lato) adoece.
Quando estamos amando, salvo exceções, criamos uma demanda de amor dirigida ao outro que não responde. O amor não pede resposta, essa reciprocidade que esperamos e às vezes até exigimos do amor é pura ilusão, uma utopia da perfeição. UTOPIA é sonho, é a fantasia de algo ideal. O outro não está aqui para nos agradar, para nos satisfazer e nem para dar o que queremos. E como isso nos gera insegurança, nada mais parece dar certo, já vivi isso e sei o quanto é difícil.
Diferente da utopia, a INCOMPLETUDE é um fato, passamos uma vida desejando que alguém nos complete. Achamos que de dois fazemos um, pura ilusão. O amor maduro é o amor que reconhece que o outro é outro, é uma parte inteira com os desejos dele e as vontades dele, o outro não está aqui para nos completar. Podemos sim compartilhar, mas não viver a vida do outro ou criar uma relação baseada na submissão do outro.
Ter desejos e tesão em outras coisas que não somente no coitado do ser amado, também ajuda. Se você tiver interesses por viagens, cultura, seu trabalho, seus amigos, seus projetos pessoais, seus sonhos, a demanda que você irá exigir do outro será menor, estará dividida e não irá sufocar, mas se seu único tesão for o coitado do outro, vai ser difícil.
“Amor é um sofrimento que vale a pena, muito mais do que o sofrimento do não amar. Caterina Koltai.”
E viva o amor, seja ele de que tipo for. Cada um ama na intensidade e com a maturidade que pode.
Alexandre Malosti
Fonte de pesquisa: www.cpflcultura.com.br/

